Mercado de ações dos EUA reage cada vez mais às decisões de Trump

A Casa Branca voltou a ocupar o centro das atenções de Wall Street no início de 2026. Declarações e decisões do governo de Donald Trump têm provocado movimentos imediatos e relevantes em ações de setores específicos.
Isso tem levado analistas a questionar se, ao menos neste momento, a política passou a pesar mais sobre os mercados do que fatores tradicionalmente dominantes, como o Federal Reserve (Fed, o Banco Central do país) e as taxas de juros.
Nas últimas semanas, episódios sucessivos ilustraram esse novo cenário. A invasão dos Estados Unidos à Venezuela no ínicio de janeiro impulsionou ações do setor de petróleo. Em outro momento, uma publicação de Trump nas redes sociais defendendo um limite para as taxas de juros de cartões de crédito derrubou papéis de empresas financeiras.
Já a proposta de novos requisitos para regular as vendas de chips da Nvidia para a China provocou queda nas ações da companhia e pressionou o setor de tecnologia como um todo.
Historicamente, a avaliação predominante entre investidores era a de que a Casa Branca tinha influência limitada sobre o mercado acionário, especialmente quando comparada ao poder do Fed. Agora, essa percepção começa a mudar.
O ditado costumava ser 'não enfrente o Fed'. Este ano, acho que será 'não enfrente a Casa Branca'", afirmou Hardika Singh, analista de ações da Fundstrat, em entrevista ao The New York Times.

Petróleo no centro do jogo

O setor de energia é um dos exemplos mais claros dessa dinâmica. O governo Trump afirmou que pretende vender entre 30 milhões e 50 milhões de barris de petróleo venezuelano, sob controle dos Estados Unidos, com o objetivo declarado de beneficiar tanto o povo da Venezuela quanto o americano.
A sinalização ocorreu após a destituição de Nicolás Maduro pelos militares dos EUA, movimento que gerou cautela entre executivos do setor quanto a um eventual retorno ao país.
Apesar das incertezas, o discurso do presidente impulsionou o setor de energia no índice S&P 500, que sobe 7,5% no ano até quinta, 15, segundo levantamento do jornal americano.
Empresas de serviços petrolíferos lideram os ganhos, como a Schlumberger (SLB), a maior empresa prestadora de serviços de petróleo do mundo que acumula alta superior a 20%, enquanto a Halliburton avança mais de 15%.
Investidores passaram a ver essas companhias, responsáveis pela infraestrutura de perfuração, como beneficiárias independentemente de quais petroleiras voltem a operar na Venezuela. Já gigantes como Chevron e Exxon Mobil registram valorização próxima de 10% desde o início do ano.
O preço do petróleo, por sua vez, subiu pouco mais de 2% e segue abaixo de US$ 60 por barril, um nível considerado suficiente para manter a lucratividade das empresas, mas ainda insuficiente para estimular novos investimentos relevantes em perfuração no país sul-americano, de acordo com analistas ao The New York Times.

Pressão sobre bancos e o Fed

O setor financeiro também sentiu o impacto direto das falas presidenciais. No fim da semana passada, Trump sugeriu impor um teto de 10% às taxas de juros de cartões de crédito, o que gerou reação imediata de bancos e levantou dúvidas no Congresso sobre a viabilidade da medida sem uma lei específica.
Desde então, as ações dos 13 bancos do setor bancário do S&P 500 recuaram, com quedas superiores a 5% em nomes como Wells Fargo, Bank of America e JPMorgan Chase. Investidores reconhecem, no entanto, a dificuldade de distinguir quais anúncios do governo se transformarão em políticas efetivas, quais serão suavizados e quais acabarão sem grande impacto.
As críticas recorrentes da administração Trump ao Federal Reserve também despertaram preocupações sobre a independência do banco central. Ainda assim, o mercado reagiu com relativa indiferença, segundo os agentes financeiros locais à publicação, às revelações de que o Departamento de Justiça investiga o presidente do Fed, Jerome Powell, em razão da reforma da sede da instituição.
Analistas avaliam que levar adiante ameaças contra Powell traria riscos excessivos a um mercado que valoriza a autonomia do Fed.

Influência da Casa Branca

Não é a primeira vez que Trump provoca fortes reações nos mercados. Em abril de 2025, o anúncio inicial de tarifas comerciais levou a uma queda acentuada das bolsas. Ainda assim, em 2026, o efeito tem sido mais concentrado em determinados setores, enquanto o S&P 500 acumula alta modesta de cerca de 1% no ano.
Esse padrão ocorre após um 2025 positivo para as bolsas americanas, apesar da volatilidade. O S&P 500 encerrou o ano com alta de 16,6%, o terceiro avanço anual consecutivo de dois dígitos. O Dow Jones subiu 13,4%, enquanto o Nasdaq avançou 20,5%, impulsionado pelo setor de tecnologia e pelo entusiasmo em torno da inteligência artificial.
Ainda assim, o choque tarifário de abril do ano passado mostrou o potencial de estresse, o S&P 500 chegou a recuar quase 19% em relação ao pico de fevereiro, flertando com território de mercado em baixa antes de se recuperar entre junho e setembro, após o recuo do governo nas tarifas mais severas.
Para Parag Thatte, analista do Deutsche Bank, essa dinâmica deve continuar em 2026, ano de eleições de meio de mandato. Ele destaca na reportagem que o índice de aprovação do presidente acompanha de perto a confiança do consumidor na economia, o que tende a limitar políticas que prejudiquem crescimento ou inflação.
"Se acabar prejudicando o crescimento ou a inflação, isso afetará a confiança do consumidor", afirmou.



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